Morrigan, Deusa dos conflitos; cuida dos corações aflitos.
Quando eu andar pelo vale sombrio, segura minhas mãos na escuridão.
Que o sangue que escorre pelo fio da tua espada seja derramado em nome da justiça.
Não me deixa só.
Em meio ao mundo em que muitos temem mencionar teu nome por falta de coragem e pureza de coração, continua cantando tua canção aos meus ouvidos, pois são os brados da tua voz que me levam pelos caminhos mais tortuosos sem me ferir.
Sê a mãe que me acolhe quando retorno do campo de batalha com vestimentas rotas e a face suja.
Me dá força para continuar.
Que assim seja.
E assim será.
quinta-feira, 23 de junho de 2016
domingo, 29 de maio de 2016
Ninguém merece
Crônicas da vida real:
Choque. O filho contou que havia pedido desculpas às
colegas, pois havia “mexido” com elas. Que havia se dirigido à diretoria da
escola para se retratar e pedir orientação de como agir, agora que tinha feito
bobagem e não sabia como recuperar a confiança dos colegas.
- Entendo. Mas foram os professores que te chamaram?
- Não, mãe. Foi a Julia*. Vi que ela estava falando grosso e
muito brava comigo. Dessa daí eu entendo bem a linguagem: ela estava muito
furiosa. Daí me flagrei que tinha algo errado e fui procurar ajuda.
Agora, depois do acontecimento dos trinta e três do Rio de Janeiro,
novas discussões surgiram nos lares, e a compreensão sobre receios de que
durmam fora de casa, ou saiam para festas de desconhecidos finalmente parece
estar sendo entendido.
E a mãe se viu no quarto sozinha com o menino que havia pedido
ajuda na direção da escola:
- Mãe, menino não é estuprado?
- Sim, meu filho. Homens e mulheres podem fazer estas coisas
contra alguém e sofrer este tipo de violência também.
- Ah. Eu sei como se estupra um menino. Não que eu tenha
feito ou participado de uma coisa destas, mas eu sei.
- Entendeu então das coisas que eu temo?
- Sim. Mas fico pensando: se um cara vier pra cima de mim,
consigo me defender. Mas se forem dois, não vou poder fazer nada.
(Imagina trinta e três, meu filho...)
- Esta é a parte mais triste. “Não poder fazer nada”. Homens
parecem passar menos por este tipo de violência ou não denunciam, o que
atrapalha a estatística. Por isto, a consciência que nós temos é de que
mulheres passam muito mais por violência sexual do que homens.
- Ô, mãe. Tem uma menina lá na escola que está me provocando.
- Como assim?
- Ela fica rebolando na minha frente, “sentando até o chão”
e depois empinando a bunda na minha cara. Daí eu peço licença para acompanhar a
lição, e ela debocha gritando para as outras meninas que eu estou me
controlando, como se isso fosse errado.
- E tu falou para a diretora?
- Sim. Ela anotou o nome da menina lá no caderno dela.
- Meu filho, se tu precisar que eu vá na escola conversar
com a diretora, pode me pedir que eu dou um jeito.
- Não. A professora Manuela* sabe bem ajeitar as coisas...
mas se não adiantar te chamo sim.
- Quero que tu entenda uma coisa muito séria: para respeitar e proteger uma pessoa, não adianta
esperar ela dizer não e parar de fazer o que se está fazendo. Vão haver
situações em que tu vai te ver sozinho com uma menina e vocês estarão fazendo
coisas que talvez ela não queira mais. É só parar também. Mas vão haver
situações também, em que ela vai te pedir para fazer coisas que tu sabe que vão
machucar ela, se não naquela hora, depois. E aí é teu papel saber dizer não
também. Por mais que seja difícil. O namorado daquela moça do Rio de Janeiro
estava com ela naquele dia. Dizem que ela se drogou, ou bebeu, não sei ao
certo. E que convidava aqueles homens a “se servirem”. Não sei se isto é
verdade. Mas se for. Tu não acha que teria sido bem diferente se o rapaz
tivesse a mandado tomar um banho e um café forte pra recobrar a consciência ao
invés de abusar da situação? Isto também é proteção e respeito.
******
Toda mulher já foi abusada de alguma forma.
Algumas pessoas chegam à ignorância de dizer que se alguma
personalidade chega até veículos de mídia para falar sobre o assunto é “para se
aparecer”.
Sinto muito, meus amigos. Mas se todas as personalidades
femininas resolvessem falar o depoimento seria praticamente o mesmo.
Pode ter sido uma agressão física. Ou verbal, ou moral.
Pode ter sido um abuso físico. Ou verbal, ou moral.
Pode ter sido um estupro. Mas pode ter sido visual, pode ter
sido virtual, pode ter sido sem penetração.
Não basta apenas respeitar o não.
Há muitos anos estamos debatendo o que é estupro ou não, o
que é abuso ou não, o que é agressão ou não.
É tão difícil assim entender que atos sexuais com uma pessoa
estando ela contrariada ou fora de consciência plena é estupro?
É tão difícil entender que tirar vantagem de alguma condição
melhor em você sobre o outro é abuso?
É tão difícil assim entender que agressão não é só física,
mas que ofendendo verbalmente, ou desmoralizar uma pessoa também é agressão?
Eu já tive “nãos” ignorados.
Eu já fui desrespeitada enquanto dormia.
Eu já fui assediada em reuniões de trabalho (graças aos
Deuses há bons anos isto não acontece).
Eu já fui tocada na rua, vestida com roupas compridas,
enquanto ia ao trabalho.
A vergonha é a mesma.
Hoje não é mais proibido ou repudiado ter filhas. Mas o
pesadelo continua o mesmo.
******
Uma babá foi presa por ter estuprado uma menina de nove anos
de idade.
A babá diz que a menina ameaçava ela caso não cometesse atos
libidinosos, fotografasse e armazenasse no tablete da criança.
Vai que a guria estava possuída pelo Pazuzu e agora ninguém
acredita na pobre babá?
*nomes fictícios
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quarta-feira, 18 de maio de 2016
Conclusões
Ainda sobre a situação atual no Brasil:
A maioria deles acredita na Bíblia.
Segundo a Bíblia “não só de pão o homem viverá, mas de toda
a palavra que procede da boca de Deus”.
E se a Cultura representa a identidade e a voz do povo, concluímos
que...
***
Um estupro deixa de ser provocado pela vítima quando esta
vítima é seu filho ou sua filha.
Um soco vindo de um marido só deixa de ter sido provocado
por uma esposa intransigente quando esta esposa é você.
Bandido bom é bandido morto até o momento em que o bandido
morto é seu familiar.
Ditadura só é ditadura quando contraria suas próprias
crenças.
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segunda-feira, 9 de maio de 2016
Alienação parental: ela pode ser substituída!
Dizem que eu sou um tipo meio estranho.
Um tipo meio raro na verdade.
Só porque eu chorei de emoção e gratidão quando vi minha filha agarrada à madrasta dela numa entrega de amigo secreto. e também por que nós trocamos ideias, e ainda por cima maquiagens quando tem festa de família.
Também acham esquisito eu abraçar apertado e pegar no colo o irmão dos meus filhos, nascido do segundo casamento do pai deles. E ainda por cima passarmos Natais juntos.
Esquisito é alienar um ser que está formando sua identidade social, isso sim.
Aproveitando minha esquisitice e me inspirando nas frases que eu mesma digo, resolvi fazer uma tabela de substituições (Tipo Preta Gil, sabe?):
Um tipo meio raro na verdade.
Só porque eu chorei de emoção e gratidão quando vi minha filha agarrada à madrasta dela numa entrega de amigo secreto. e também por que nós trocamos ideias, e ainda por cima maquiagens quando tem festa de família.
Também acham esquisito eu abraçar apertado e pegar no colo o irmão dos meus filhos, nascido do segundo casamento do pai deles. E ainda por cima passarmos Natais juntos.
Esquisito é alienar um ser que está formando sua identidade social, isso sim.
Aproveitando minha esquisitice e me inspirando nas frases que eu mesma digo, resolvi fazer uma tabela de substituições (Tipo Preta Gil, sabe?):
Acho digno e útil.
Já parou para pensar em qual lado da tabela tu mais te refere quando fala com teus filhos, ou com o pai/a mãe deles? Já parou pra pensar que pai/mãe não tem absolutamente nada a ver com marido/mulher? E que se o casamento acabou, virar pai/mãe faz de ti parte de uma equipe vitalícia na criação de outros seres humanos?
E principalmente: que a alienação parental é crime e não está presente apenas na proibição de visitas, mas na influencia em destratar, desrespeitar, diminuir ou humilhar o pai ou a mãe que não mora com o filho? E o pior: não é só porque é crime que deve ser repensada. Já pensou o que se passa na cabeça dest@ filh@?
E agora, quem é o estranho?
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quinta-feira, 21 de abril de 2016
E foi sem cuspe mesmo
Escrevo este texto para amigos. Amigos que tenho visto
compartilhando em redes sociais relatos de pessoas que passaram pelos horrores instituídos
após o AI-5 ser sancionado no Brasil em 1968.
Amigos que tem exposto o relato
sofrido (não tenho outra palavra) de Amelinha Teles. Tudo isto numa tentativa
vã de conscientizar os outros sobre o quão absurdo é a opinião do Sr. Jair
Bolsonaro. E já digo de antemão, meus amados: de nada adiantará, nem que a
tortura em questão fosse infligida às mães deles. Se uma pessoa chega ao
ponto de admirar alguém com este tipo de postura, teria ela o discernimento
destas coisas?
Gostaria de dizer querido amigos, que me sinto sim
desrespeitada quanto mulher ao saber que ainda existem pessoas que acreditam
ser normal o que aconteceu durante um período tão sombrio de nossa história (e
que diga-se de passagem não concordo em ser apagado de nossa memória nem com
mudança em nomes de avenidas). Seja do lado que for.
Há anos atrás resolvi trabalhar em um monólogo que falava
sobre um caso de Síndrome de Estocolmo que ocorria num cativeiro do exército em
Porto Alegre durante a Ditadura Militar.
O texto nunca saiu do papel (quem sabe um dia). Mas para
concebê-lo, fiz laboratórios me aproximando o máximo possível daquela realidade
ouvindo e entendendo o que se passava na cabeça de pessoas envolvidas com
aquela situação. Fui em busca de pessoa que tivessem em algum momento amado um
torturador a serviço do Exército Brasileiro. E pasmem: encontrei tantas, que havia
duas no mesmo bairro. E uma das coisas que mais me chocou foi o fato de saber
que não precisava se estar em um porão para que aquela face do medo estivesse
presente na vida delas.
Esposa de um militar, mãe de quatro filhos dele, Janete*
fugiu do estado onde moravam. Ela assistiu o homem com quem trocou alianças
apaixonadamente se transformar em um monstro que descrevia em minúcias as
maiores atrocidades que ocorriam em seus plantões em uma das salas do DOI-CODI
no Rio de Janeiro. Ela sabia estar deitada na cama ao lado de um homem que
provavelmente algumas horas antes havia estuprado uma (ou um) estudante qualquer.
E passou a abrir as pernas por medo. Até o dia em que ele olhou no fundo de
seus olhos, ao ser contrariado em uma tarefa doméstica, e sussurrou por entre
os dentes “subversiva”. Na primeira oportunidade pegou os filhos e veio para o
Rio Grande do Sul. Nunca mais o viu. “Mas como, dona Janete? Como ele nunca a
encontrou”? Eu perguntei. “Acho que foi milagre, minha filha”, ela respondeu
com olhos de quem ainda lembra de cada cena.
Já Iracilde* me mostrou um outro lado. O seu esposo militar
negou-se a torturar uma grávida, e ficou preso. E ela também, só que em casa.
Com o único filho nos braços, na época com três meses. Me contou que ficavam
dois soldados em sua porta. Por dias. Não podia sair nem para comprar comida.
Um dia o bebê teve uma febre que não cedia. Iracilde gritava por socorro, pedia
remédios, pedia compaixão. Em troca, o silêncio. A febre ficava cada vez mais
alta. O bebê convulsionava. Ela não tinha mais como gritar, aquele silêncio
iria matar seu filho. Colocou-o embaixo de uma torneira fria. Ele recobrava a
consciência. Passou a noite inteira assim, alternando o banho frio com
massagens para que o menino recobrasse a consciência. A criança está viva até
hoje (é um grande amigo). Mas quando perguntei sobre o esposo, Iracilde pediu
que, por favor, não a fizesse falar mais. Respeitei. Afinal tenho meus filhos.
Segui pesquisando, segui ouvindo, segui sentindo. E sem
cuspe. Quando uma pessoa concorda em falar sobre isto não há suavidade, não há
censura, não há cortes. Apenas dor.
Se acho que corremos o risco de vivermos novamente momentos
como este? Não exatamente. Mas confesso que tenho pânico de mesmo sendo “bela,
recatada e do lar”. Certa vez ouvi que se vivesse minha vida decentemente indo
de casa ao trabalho e do trabalho para casa nunca correria risco nenhum e a
única coisa que me veio à mente foi a imagem de Herzog: empregado, trabalhador,
afamilhado. Não é de graça. O jornal onde hoje trabalho teve toda sua edição de 20/09/1972
recolhida, e em 18/04/2016 publicou uma foto do vice-presidente brasileiro
rindo displicente na capa.
Se acredito que uma cusparada resolva tudo? Não. Mas nunca
deixo de acreditar em justiça divina. E esta, meus amigos, sempre chega. De um
jeito ou de outro.
*Nomes fictícios, para proteger a identidade dos envolvidos
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