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segunda-feira, 4 de julho de 2016

Por que não acreditar no Criança Esperança?

Ok, vamos começar do começo. Já aviso que este post contém palavrões.

A Globo foi acusada de sonegação de impostos, o salário anual de alguns apresentadores supera a arrecadação anual do projeto, o trabalho todo é baseado nas doações de outras pessoas e entidades, fazendo com que a emissora em questão receba benefícios como isenção ou descontos em determinados impostos “às custas dos outros”.

Beleza. Concordo, inclusive.

Mas vamos tentar enxergar por outro lado? Por exemplo: quem me conhece sabe que trabalho com uma parte meio fora do comum na Comunicação. Sou um dos responsáveis por agregar valor a um dos maiores produtos de comunicação do meu Estado. E confesso; não é um trabalho fácil.

E muitas, mas muitas vezes pensamos em projetos que tem cunho social. Projetos que vão beneficiar muitas outras pessoas. Mas que temos que colocar em prática com outros parceiros que poderão auxiliar de uma maneira ou outra, pois não temos como pagar algumas contas sozinhos.

“Ah, Carol, mas o faturamento da Glob”... Pssssssht! Eu não tenho uma cópia do relatório de faturamento da Globo nem você tem. Pessoas, entendam de uma vez por todas que os grupos de comunicação vivem de ilusão. Isto mesmo! Pura ilusão. Totalmente besta isto, mas é ilusão. Sabe aquela tinta acrílica dourada e marota que passam por cima dos altares barrocos na restauração? Pois é.

Desculpem se decepciono vocês, ainda mais por estar me colocando como se defendesse um grupo que é concorrente daquele para o qual eu trabalho. Mas a grande questão é que não estou defendendo porra nenhuma.
Só estou questionando o seguinte: por que raios é tão condenável usar a própria imagem para arrecadar doações e conscientizar os serumaninhos da existência de outros serumaninhos? Gente, o Sérgio Zambiazi fez isto a vida inteira e é um ícone do rádio gaúcho! O Zambiazi podia comprar quantas cadeiras de roda quisesse, tenho quase certeza disto, mas ele preferiu fazer melhor que isto, ele preferiu fazer com que seus ouvintes percebessem a presença do outro. Não esqueçam que empresas de comunicação continuam sendo empresas e devem se autossustentar como tal. Ah, e não esqueçam também: a imagem é um produto. E se estou cedendo gratuitamente a minha, isto é filantropia sim.

“Ah, sim, né, Carol! Gozar com o pau dos out”...

É, é mais fácil sim. E criticar o pau dos outros sem ter visto o estrago que ele pode fazer também é fácil demais.

Acha que o Criança Esperança é balela, auxilia poucos jovens e é apenas uma máscara de boa moça para a Globo? Também acho. Mas e o seu projeto? O que você fez por estes jovens?

É muito bonito duvidar de um projeto social e fazer absolutamente NADA para mudar a realidade à sua volta. Assim protestar é ser apenas mais um rebelde sem causa, infantilóide, mimado e cegueta diante deste mundo de merda em que somos obrigados a ver crianças vivendo situações que talvez nem nós adultos suportaríamos. Ou seja: não vale.

Se eu doei algo para este projeto?

Não. Desconfio do mesmo que você; por isto eu mesma proponho debates à minha volta e entrego minhas próprias doações (desde brinquedos até meus próprios cabelos, se querem saber). Mas com muito respeito. Acima de qualquer coisa, respeito.


quinta-feira, 30 de junho de 2016

E se... Game of Thrones fosse exibida em TV aberta no Brasil?

Vocês já pararam para reparar que patacuada as emissoras brasileiras fazem com os títulos de filmes, série, seriados e seja lá que programa "importado" for que comprem para exibir?

Tipo... "Batalha dos Confeiteiros" (The Cake Show), "Breaking Bad - a química do mal" (Braking Bad), "Bake Off Brasil - Mão na Massa" (Bake Off Brasil, ou Itália, ou Inglaterra, ou...), "Rush - No limite da emoção" (Rush), "O galinho Chicken Little" (Chicken Little) ok, as distribuidoras cinematográficas também ajudam, né?).

Olha que corremos um grande risco: o de que Game of Thrones, que segundo a produção acaba em 2018 seja "importado" para cá (Gente, lembremos de "Roma", "Pilares da Terra", "Julio Cesar", "Sleepy Hollow" e sabe-se lá mais o que. E ignoremos o formao Big Brother.).

Estava cá pensando com meus botões: como cada emissora de TV aberta se comportaria. Até planilhei! Só não disse nada da Rede TV, pois fiquei em dúvida se a Daniela Albuquerque faria uma abertura, ou o João Kleber ficaria gritando enlouquecido sobre "quem ia morrer neste episódio de hoje", ou "que segredo era guardado pela mulher vermelha". Uma coisa é certa: Luciana Gimenez certamente iria promover debates com subcelebridades enriquecidos com desfiles de lingerie inspiradas nas personagens da série.


terça-feira, 28 de junho de 2016

Precisamos falar sobre Velho Chico (E sua possível rejeição)

No dia em que o primeiro capítulo de Velho Chico foi ao ar, lembro que fiz textão no Facebook. E neste textão uma previsão catastrófica que está se concretizando, infelizmente. Deveria estar feliz por mesmo após seis anos longe da roteirização ou direção de espetáculos não ter perdido o faro com o público. Mas não estou. Nem um pouco.

Estou sim, desiludida. Ao mesmo tempo em que acreditei que a Globo, com seu poder de persuasão em horário nobre iria auxiliar na penetração de outros formatos de texto, atuação e até de fotografia no entendimento da “plateia”, tirando à manobra de fórceps da erudição seletiva certas práticas cênicas; tinha a certeza de que o público seria resistente. E está sendo.

Muito bem, meus senhores. Velho Chico parece estar correndo o risco de ser encurtada. Graças à sua falta de músicas populares com refrões repetitivos e sem nexo, bordões óbvios e cenas de sexo gratuito. Pelo amor de todos os deuses, quando sonharíamos que uma novela da Globo teria um poema de Gregório de Matos musicado em sua trilha sonora (e primorosamente encaixado na realidade expressa no texto)?

Lembro como se fosse hoje, em meio às risadas por ter visto os pelos pubianos de Santoro (Poxa, qual adolescente dos anos 1990 não esperou ansiosamente por isto?), que lembrei do quão significativas eram as manifestações sexuais entre sua personagem e a de Carol Castro. E sem levar em consideração o contexto histórico do período de liberação sexual e o “desenfreamento” de Afrânio (que mais tarde viria a antagonizar com o conservadorismo que assumiria ao encarnar o papel de Coronel Saruê no lugar do pai – o que aliás reflete a sucessão rural tão forte em certas regiões do país), ouvi pessoas próximas a mim desistindo de assistir à novela por que só mostrava “putarias”.

Dei muitas risadas com dona Encarnação chamando a nora de “Gitana” fonetizando com “J”. Clara referência à ignorância causada pelo isolamento cultural de certas camadas da população que ainda assim se enche de razão. E se Selma Egrei é cansativa, arrastada e irritante, louvores a ela: de que valeria meses de laboratório se não para fazer com que o público sentisse por ela asco que parte das outras personagens sentem?

E chorei copiosamente enquanto o padre Benício rogava a Nossa Senhora que desse sabedoria a Santo e Tereza para administrar o amor que sentem um pelo outro. O quanto isto acontece em nossas vidas? Seríamos nós aptos a aceitar apenas o que fantasiamos como amor e não o que acontece todos os dias em consequência do amor? Parece que apenas quem amarga sentimentos por longos anos e não encontra saídas entenderia o que está expresso por alí.

Seria apenas eu que entendi lá nos primeiros capítulos a alegoria dos barcos no Rio São Francisco? Só eu senti o prazer de ter verdadeiras telas de Portinari invadindo minha casa através da fotografia da novela? Será o pé do Benedito que só eu entendi os elementos surreais que permeiam a trama fazendo ela inserida em um local onde o tempo parou? Não. Isto não é possível. E sei não ser possível porque vi alguns poucos falando exatamente isto a respeito das intenções de Benedito Rui Barbosa (Mestre!).

Velho Chico traz a caricatura que é sim presente em nossas vidas, traz pausas cênicas para que possamos refletir (e deglutir) acerca de tantas informações difíceis que “pipocam” diariamente. Traz a diva Christiane Torloni cantando despreocupadamente e naturalmente como todo ator deveria ser permitido fazer (sem playbacks), porque ela não está concorrendo a um Grammy, mas interpretando (E meus Deuses, como é bom ouvir esta mulher cantar deste jeito!).

Façamos um esforço e assumamos que talvez (Talvez uma pinóia, agora minha previsão está comprovada.) o público não esteja preparado para pensar e muito menos aceitar que (mais uma vez esta afirmação) a arte é amoral. Na vida temos gente preconceituosa, chata, violenta, política. Temos regiões no Brasil em que a homossexualidade é velada por conta de traços culturais lamentáveis, mas traços culturais (E daí a tal ausência de personagens homossexuais na trama.).

Esta é a realidade nua e crua. Aceitem se tiverem força para isto.


(E só para piorar um pouco mais o post, deixo aqui embaixo a oração à Santa Sara que a “Jitana” Christiani Torloni conduziu de uma maneira que eu nem sei descrever – e olha que eu nem paro para olhar novela, hein?)




quinta-feira, 23 de junho de 2016

Oração

Morrigan, Deusa dos conflitos; cuida dos corações aflitos.

Quando eu andar pelo vale sombrio, segura minhas mãos na escuridão.

Que o sangue que escorre pelo fio da tua espada seja derramado em nome da justiça.
Não me deixa só.

Em meio ao mundo em que muitos temem mencionar teu nome por falta de coragem e pureza de coração, continua cantando tua canção aos meus ouvidos, pois são os brados da tua voz que me levam pelos caminhos mais tortuosos sem me ferir.

Sê a mãe que me acolhe quando retorno do campo de batalha com vestimentas rotas e a face suja.
Me dá força para continuar.


Que assim seja.
E assim será.




domingo, 29 de maio de 2016

Ninguém merece

Crônicas da vida real:

Choque. O filho contou que havia pedido desculpas às colegas, pois havia “mexido” com elas. Que havia se dirigido à diretoria da escola para se retratar e pedir orientação de como agir, agora que tinha feito bobagem e não sabia como recuperar a confiança dos colegas.

- Entendo. Mas foram os professores que te chamaram?

- Não, mãe. Foi a Julia*. Vi que ela estava falando grosso e muito brava comigo. Dessa daí eu entendo bem a linguagem: ela estava muito furiosa. Daí me flagrei que tinha algo errado e fui procurar ajuda.

Agora, depois do acontecimento dos trinta e três do Rio de Janeiro, novas discussões surgiram nos lares, e a compreensão sobre receios de que durmam fora de casa, ou saiam para festas de desconhecidos finalmente parece estar sendo entendido.

E a mãe se viu no quarto sozinha com o menino que havia pedido ajuda na direção da escola:

- Mãe, menino não é estuprado?

- Sim, meu filho. Homens e mulheres podem fazer estas coisas contra alguém e sofrer este tipo de violência também.

- Ah. Eu sei como se estupra um menino. Não que eu tenha feito ou participado de uma coisa destas, mas eu sei.

- Entendeu então das coisas que eu temo?

- Sim. Mas fico pensando: se um cara vier pra cima de mim, consigo me defender. Mas se forem dois, não vou poder fazer nada.

(Imagina trinta e três, meu filho...)

- Esta é a parte mais triste. “Não poder fazer nada”. Homens parecem passar menos por este tipo de violência ou não denunciam, o que atrapalha a estatística. Por isto, a consciência que nós temos é de que mulheres passam muito mais por violência sexual do que homens.

- Ô, mãe. Tem uma menina lá na escola que está me provocando.

- Como assim?

- Ela fica rebolando na minha frente, “sentando até o chão” e depois empinando a bunda na minha cara. Daí eu peço licença para acompanhar a lição, e ela debocha gritando para as outras meninas que eu estou me controlando, como se isso fosse errado.

- E tu falou para a diretora?

- Sim. Ela anotou o nome da menina lá no caderno dela.

- Meu filho, se tu precisar que eu vá na escola conversar com a diretora, pode me pedir que eu dou um jeito.

- Não. A professora Manuela* sabe bem ajeitar as coisas... mas se não adiantar te chamo sim.

- Quero que tu entenda uma coisa muito séria: para  respeitar e proteger uma pessoa, não adianta esperar ela dizer não e parar de fazer o que se está fazendo. Vão haver situações em que tu vai te ver sozinho com uma menina e vocês estarão fazendo coisas que talvez ela não queira mais. É só parar também. Mas vão haver situações também, em que ela vai te pedir para fazer coisas que tu sabe que vão machucar ela, se não naquela hora, depois. E aí é teu papel saber dizer não também. Por mais que seja difícil. O namorado daquela moça do Rio de Janeiro estava com ela naquele dia. Dizem que ela se drogou, ou bebeu, não sei ao certo. E que convidava aqueles homens a “se servirem”. Não sei se isto é verdade. Mas se for. Tu não acha que teria sido bem diferente se o rapaz tivesse a mandado tomar um banho e um café forte pra recobrar a consciência ao invés de abusar da situação? Isto também é proteção e respeito.

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Toda mulher já foi abusada de alguma forma.

Algumas pessoas chegam à ignorância de dizer que se alguma personalidade chega até veículos de mídia para falar sobre o assunto é “para se aparecer”.

Sinto muito, meus amigos. Mas se todas as personalidades femininas resolvessem falar o depoimento seria praticamente o mesmo.

Pode ter sido uma agressão física. Ou verbal, ou moral.

Pode ter sido um abuso físico. Ou verbal, ou moral.

Pode ter sido um estupro. Mas pode ter sido visual, pode ter sido virtual, pode ter sido sem penetração.

Não basta apenas respeitar o não.

Há muitos anos estamos debatendo o que é estupro ou não, o que é abuso ou não, o que é agressão ou não.

É tão difícil assim entender que atos sexuais com uma pessoa estando ela contrariada ou fora de consciência plena é estupro?

É tão difícil entender que tirar vantagem de alguma condição melhor em você sobre o outro é abuso?

É tão difícil assim entender que agressão não é só física, mas que ofendendo verbalmente, ou desmoralizar uma pessoa também é agressão?

Eu já tive “nãos” ignorados.

Eu já fui desrespeitada enquanto dormia.

Eu já fui assediada em reuniões de trabalho (graças aos Deuses há bons anos isto não acontece).

Eu já fui tocada na rua, vestida com roupas compridas, enquanto ia ao trabalho.

A vergonha é a mesma.

Hoje não é mais proibido ou repudiado ter filhas. Mas o pesadelo continua o mesmo.

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Uma babá foi presa por ter estuprado uma menina de nove anos de idade.

A babá diz que a menina ameaçava ela caso não cometesse atos libidinosos, fotografasse e armazenasse no tablete da criança.


Vai que a guria estava possuída pelo Pazuzu e agora ninguém acredita na pobre babá?

*nomes fictícios