Páginas

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Nunca quis um filho gay

Quando meu filho nasceu, após sete dias na UTI Neonatal foi direto para meu local de trabalho comigo.

Nas coxias de teatros meu filho conheceu os mais variados tipos de pessoas, passou por todos os tipos de colos, e teve todo o cuidado que elencos grandes poderiam dar. Qualquer resmungo e lá estava alguém que havia ficado fora da cena vendo o que a “mascote” da equipe precisava.

Consequentemente meu filho cresceu tendo por brinquedos objetos de meninas e meninas, pois vivia com acessórios cênicos nas mãos. Para ele, era absolutamente normal minha discussão com o pai dele que havia pego meu delineador emprestado e esquecera de devolver. Isso, porque a maquiagem nada mais era do que um instrumento de trabalho do pai dele, e da mãe também, e que nunca foi fator predominante para definir nosso gênero e menos ainda opções e comportamentos sexuais.

Nos primeiros anos, meu filho se perdia em meio aos nossos pincéis de maquiagem, e testava cores em nossos rostos. Sempre teve talento para desenho, e isso se refletia nas caracterizações que criava em nós, daquele jeito peculiar que uma criança faz.

Um dia, seu pai e eu nos separamos, nas voltas que a vida dá. Mudei de cidade, e meu filho mudou o lugar onde ficava. Ele que nunca foi proibido de ficar entre as meninas brincando, agora tinha restrições. E mesmo que eu dissesse que era contra este comportamento, que acreditava que todos eram iguais, a resposta que tinha era de que meu filho poderia entender o mundo do jeito que ele quisesse, mas que havia coisas de homens e coisas de mulher. Junto com sua irmã, ficou por quatro anos aos cuidados de uma família mais conservadora enquanto eu trabalhava. E em nenhum momento vi isso como algo negativo: meu filho precisava entender a diversidade. Precisava entender que havia locais onde pessoas pensavam de uma maneira diferente e ele devia respeitá-las da mesma maneira que desejava ser respeitado. Meu filho nunca foi maltratado neste lugar, mas presenciou meninos acreditando que provavam sua masculinidade lutando entre si não brincando com meninas. E presenciou também meninas que acreditavam comprovar sua feminilidade costurando e demonstrando timidez nos “bailinhos” promovidos pela família. E justamente por presenciar “coisas de homem” passou a praticá-las.

Perguntei há pouco tempo se queria testar maquiagens em mim. Ouvi um não bem redondo. “Mas tu sempre gostou”, retruquei. “Não gosto mais”, ele respondeu sem jeito.

Não ia insistir. Minha filha discretamente cochichou para mim que havia visto seu irmão falando que isso era coisa de bicha, veado, gay. E que ele não era gay. E mesmo assim deixei a confusão acontecer. Meu filho precisava entender e lidar com a rejeição de algo que gostava por causa de possíveis rótulos.

Passei a mostrar que nada tinha de gay um homem usar maquiagem. Ele entendeu. Fiz um esforço verdadeiro para que meu filho agisse como achava melhor.

Parecia uma busca incessante por uma identidade original dele. Um dia me perguntaram no trabalho: “Mas e se ele for gay? Tu quer um filho gay”?

Nunca quis um filho gay. Nunca, de verdade. Ensino ao meu filho, que agora termina sua educação moral exclusivamente em casa, pois já tem 13 anos; que ele pode dizer não para uma menina quando quiser. Quando me refiro a um futuro onde ele terá uma casa e uma família, nunca uso a palavra esposa. Falo pessoa: a “pessoa que viver ao teu lado”. Ensino a ele artes e outras delicadezas. Costurar, cozinhar, limpar. Ensino tudo junto à sua irmã: além disso tudo que falei, planejamento de carreira, educação financeira, defesa pessoal e comportamento social.

Ensino tudo isso, porque nunca quis um filho gay. Nem uma filha lésbica. Isso porque não é um direito meu modelá-los neste sentido. Não é meu direito de mãe torná-los homo ou heterossexuais. Para mim, de que importa o gênero da pessoa que meus filhos escolherem para compartilhar a vida, ou apenas a cama? O que me importa é a integridade física, mental e moral deles. E isto independe do sexo que vierem a praticar, desde que haja respeito, educação, cuidado e conhecimento. É isso que quero. E amor de mãe, meus amigos, é uma “doença”. E não tem cura. Ao contrário da homossexualidade, que também não tem cura, mas não é uma doença.


Nunca quis um filho gay. Só quis filhos completos, sejam eles como forem; e isso é um direito deles.

Imagem extraída do Google

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Precisamos falar sobre o Santander

Não apenas sobre o Santander. Mas sobre Cultura, Arte e o verdadeiro motivo de sua existência.
Quando falamos em Cultura não estamos falando apenas em Arte. Estamos falando em “todos os produtos comportamentais, espirituais e materiais da vida social humana” (TYLOR, 1877). Porém, não temos como falar em Cultura sem falar em várias formas de Arte, uma vez que é através dela que o homem, desde sua pré-história, representa seu cotidiano. Gravem bem estas últimas palavras.
O primeiro homem coloriu a primeira parede de caverna com as mãos sujas, representou ali suas digitais. Quando foi seguido por contemporâneos que aperfeiçoaram sua técnica e passaram a ilustrar figuras de animais sendo caçados por grupos de homens, podemos observar que a partir dali foi-se criando um padrão, uma normatividade. Ou seja, passou a tornar-se normal homens usarem lanças ou armadilhas para aprisionar seu alimento, pois através de gravuras podiam observar que tribos assim o fizeram e havia dado certo. Também houve aqueles que enrolando argilas com as mãos criavam falos para que fossem “cultuados”. Afinal, sem o falo não haveria reprodução, embora muitas tribos ainda acreditassem que a fêmea engravidasse quando deitada sob a lua. Quando tiveram acesso aos falos de argila entenderam a mensagem: os filhotes vinham da relação sexual regular. Aos poucos foram entendendo que a relação entre heterossexuais garantia a sobrevivência da espécie. E repetiram este padrão, até constituírem família. Também refletindo sobre as caçadas registradas nas paredes, tiveram a ideia de começar um trabalho de pecuária. Quão arriscado era sair correndo com uma lança atrás de um mamute, enquanto sua família o esperava? Nada além do produto da reflexão sobre os registros de um cotidiano primitivo.
A Arte sempre foi religiosa e não religiosa também. Durante a Idade Antiga vemos representações de ritos, mas vemos representações de cotidiano também. Ao mesmo tempo em que vemos Deuses egípcios pintados em paredes de pirâmides, vemos também calendários e descrições de colheitas. Vemos na Grécia Deuses que mostram o padrão de corpo belo para a sociedade grega, e vemos também afrescos mostrando festas, esportes, contos. Vemos escritos em alfabetos que ainda passariam por muitas mudanças a escrita de músicas, mitos, lendas, poemas. Todos registros de como as diversas civilizações em ebulição se comportavam. Qual cidade nunca quis ser modelo em educação como Atenas, ou modelo bélico como Esparta? Sem estes registros não iria querer, não haveria tal conhecimento. Aqui abrimos um parêntese: “Entre nós reviva Atenas para assombro dos tiranos. Sejamos gregos na Glória e na virtude romanos”. Isto lembra alguém? Pois aqui começa nossa jornada.
A bela arte greco-romana foi contraventora. Quando? Quando aqueles que deram continuidade à organização social entenderam que o corpo humano era algo pecaminoso. Não estamos aqui falando da Idade Média de maneira pejorativa. Isto é História. Houve proibições, condenações, mas houve também registro artístico. Um registro adverso ao anterior, mas havia. Um período em que a figura humana podia ser retratada, desde que sem movimento, sem forma realista, sem perspectiva angulosa e de profundidade, tudo afim de evitar a visualização de vergonhas, pois isto poderia estimular o espírito pecador humano. Como estudamos (aqueles que estudaram a respeito), podemos observar que de nada isto adiantou. O espírito pecador continuava vivo. Assim como o espírito da ignorância, da privação, da miséria. Mesmo com uma arte manipulada para dizer apenas o que os mais fortes queriam tornar padrão entre os mais fracos, para que seus feudos continuassem organizados à sua maneira, o comportamento humano continuava humano. Mesmo com perseguições, o comportamento humano continuava humano. Os pênis continuavam existindo, as vaginas continuavam existindo, felações continuavam existindo, a pedofilia (infelizmente) já existia e continuou existindo, a zoofilia (infelizmente) já existia e continuou existindo, o incesto já existia e continuou existindo. Até mesmo outras religiões já existiam, e continuaram existindo. Mesmo com uma arte que passava por uma censura muito mais rigorosa que em qualquer outro tempo o comportamento humano continuava existindo. Inclusive entre aqueles que mantinham o poder em suas mãos.
Até o dia em que Giotto começou a humanizar seu trabalho e foi seguido por outros artistas que vieram gradativamente ressuscitando as belas artes greco-romanas.
Quem não admira as obras dos quatro maiores artistas do Renascimento? Que belos quadros, afrescos, esculturas, murais nos deixaram! Tudo isto contraventor. Tudo isto foi um escândalo. As transparências nas roupas, as formas, a luz, a perspectiva, o provável sêmen que Michelangelo usava em suas tintas para garantir fixação. Estudavam cadáveres às escondidas, temerosos de uma perseguição implacável. Neste período podemos ver a ascenção dos retratos. Quase sempre manipulados. Pois como nem sempre o retratado podia ser um exemplo do que era belo, um Photoshop manual era ali aplicado e estava resolvido o problema, mantendo assim cabeças sobre pescoços e a pele longe do fogo. Mas isso sim é bonito. Mesmo assim, através destas obres podemos conhecer a vaidade humana, um comportamento em voga na época.
A Arte não retrata absolutamente nada que não exista. Mesmo que seja um sonho de Frida Kahlo. Existe. É um sonho. Que seja um relógio liquefeito (talvez nossa modernidade líquida, como Bauman chama) de Dalí. Existe. Ainda é um relógio. Que seja o Minotauro de Picasso. Minotauros podem não existir, mas o mito existe. Seria um ato de zoofilia grego o que gerou o mito, e que até Monteiro Lobato recontou para crianças?
Partindo deste pressuposto, se substituirmos ovos e galinhas por arte e comportamento a pergunta se torna bem mais simples de responder. Uma vez que a arte reproduz algo que já existe, seria mesmo possível que a arte “incitasse” algum comportamento?
Ou estamos diante novamente do comportamento humano que prevê a acusação de um terceiro quando a culpa é minha? Sempre precisamos de uma “bengala” para nos apoiarmos em alguma contravenção.
Estamos diante de uma sociedade em que toda vez que a frase “a Arte não é moral nem imoral, mas amoral” de Oscar Wilde é citada, tal citação tem que ser obrigatoriamente acompanhada de explicações profundas sobre linguagem. E podem acreditar: o papel da Arte é ser puramente amoral, para que assim possa incomodar, tirar o expectador de sua zona de conforto. Este é um conceito que aprendemos no ensino fundamental, nas primeiras aulas de Educação Artística. Mas talvez não tenhamos prestado atenção, pois jogávamos um gouache qualquer no papel para termos nota e presença no final do trimestre, e entregávamos nas mãos do professor "tri louco" que nunca era levado a sério.
Sejamos sensatos. O problema nunca será o artista. Será a sociedade que ele retrata.
Por que ao contrário de condenarmos um artista, como se tudo o que ele retrata fosse fantasia dele, criada exclusivamente por ele para manipular uma sociedade já adoecida; não criamos debates em torno do que ele retrata, e encontramos assim soluções para que estes elementos não precisem mais ser retratados? Por que não entendemos a arte como um manifesto, como uma ferramenta de reflexão? Seria mais confortável continuarmos então com o ufanismo de Ary Barroso e seu país perfeito (isso era real?).
Um museu fechou uma exposição. Estão quase todos satisfeitos. As crianças que se prostituem nas estradas continuam ali. Os animais subjugados por seu “proprietários” continuam ali. Os religiosos (sejam cristãos ou não) que usam de uma moralidade criada para subjugar alguém seja social ou sexualmente continuam ali. Mas a exposição está fechada, e nossas crianças continuam tendo nojo do próprio corpo enquanto fazem suas descobertas (abusadoras ou abusadas) escondidos atrás do muro da escola, pois falar sobre o assunto é feio. Grande vitória de nossa sociedade. A exposição fechou. Viva!
Agora, falando em primeira pessoa: Podem acreditar, eu não gostei de escrever isso. E nem toquei no assunto de classificação indicativa, que proporcionaria aos pais e responsáveis por menores de idade o exercício do livre arbítrio em levar ou não sua família a um ambiente artisticamente contraventor (Porque sim, se é um direito do artista retratar, é um direito do expectador não assistir.). Queria mesmo escrever sobre uma sociedade onde todos são dignos e se respeitam. Em que todas as obras de arte são belas. Tão belas quanto os panfletos que recebemos na rua, onde crianças brincam com tigres em um campo verdejante sob um céu com arco-íris, enquanto seu pais sorriem para elas. Mas artista que sou antes de qualquer outra coisa que eu seja, precisava escrever sobre o que existe. Sinto muito, de coração.


Caroline Garcia – Atriz, Jornalista, Pós Graduanda em Gestão Cultural.

Imagem: Tadeu Vilani/Agência RBS

quinta-feira, 27 de abril de 2017

7 motivos para uma greve geral não dar certo no Brasil

1 – Você está pensando em aderir à greve. Mas vai até a empresa de iniciativa privada onde trabalha para dar uma espiada e ver quem está por lá. Alguns colegas seus bateram o ponto e estão em seus postos. Você lembra da fila do Sine e resolve bater seu ponto também. Quem se arriscaria? Se a empresa toda não parar por um motivo legitimado o empregador pode tomar a providência que quiser (estou errada?)!

2 –Nos anos 90 teve uma greve de ônibus tenebrosa na minha cidade, onde tinha até motorista e cobrador deitados na frente do portão impedindo os colegas de saírem com os carros, montaram até uma rádio interna na empresa. Durante este período até caminhoneiros com carros para carga animal lucraram cobrando o mesmo valor da passagem para levar os trabalhadores até seu local de trabalho... nas mesmas caçambas utilizadas por vacas e cavalos (não ao mesmo tempo).

3 – Estamos diante de mais uma tentativa de Greve Geral, envolvendo o transporte coletivo municipal e intermunicipal; e pelo o que um colega me informou, houve um baita crescente de cadastramento de Ubers nos últimos dias. Preciso dizer mais alguma coisa?

4 – As empresas se prestam a ressarcir os colaboradores quando precisam usar táxis, lotações, ônibus alternativos e estas coisas quando os rodoviários param.

5 – A palavra Corrupção parece ter virado, para uma grande parte da população, um substantivo para descrever qualquer insatisfação (Imagina que lindo: você chega em casa, dá de cara com sua esposa, no sofá com o amante. Grita “Que corrupção é esta”? E joga o sofá fora.). Toda esta confusão, é claro, iniciada lá por aquela preguiça de procurar palavras no dicionário nas séries inicias da escola. Um adendo: “Vou deixar meu carro aqui na vaga dos idosos mesmo, pois o protesto é muito importante e não tem onde estacionar perto. A corrupção não pode continuar e não vou deixar barato”.

6 – Você já leu a trilogia 1808, 1822 e 1889? Leia e voltamos a conversar. Não vou escrever o sexto motivo sem termos embasamento para lê-lo. Mas envolve fazer com que uma pessoa acredite piamente que uma decisão é legitimamente sua. Se você era adulto em 1992 (o que confesso que não era, mas sempre fui uma criança muito observadora) também vai entender a deixa.


7 – Estamos no Brasil, lembram?


segunda-feira, 6 de março de 2017

Semana da mulher: Dia 1 – sobre perpetuação

Ontem à noite, estive em uma festa de aniversário de uma querida amiga, cigana, que recebeu ciganos e gadjos em seu lar. Um clima agradável, uma energia boa, risos. Momentos ótimos compartilhados com amigos.

Mulheres ciganas e não ciganas dançavam livremente (Confesso que fiquei mais ao lado dos cantores que das dançarinas, porque comecei a ter uma grande cólica – Mioma. Uma praga. –. Daí também me dei por conta de que minha mania de fazer de tudo um pouco pode ser vantajosa às vezes.).

Ao voltar para casa, lembrei que hoje era o primeiro dia de aula da minha filha. Que está em uma escola separada do irmão, homem e mais velho. E lembrei também que no ano passado um menino que gosta de se meter a valentão com as meninas, especificadamente com as meninas, ameaçou “arrastar a cara dela no asfalto” se ela dirigisse o olhar a ele novamente. Também lembrei que ela peitou o menino, e com as palavras dela, se escorou na mesa dele e disse: “Olha aqui, fulano. Não sei qual é o teu problema. Mas a gente tá aqui pra estudar, e não pra ficar se ameaçando. Eu queria ser tua amiga, mas pelo jeito tu não quer. Então tu me deixa em paz e eu te deixo em paz. E se tu não fizer isso, vou chamar minha mãe. E se ela tiver que resolver do jeito dela, tu não vai gostar”. A mãe. Ela ia chamar a mãe. Com um irmão e um padrasto em casa, ela resolveu avisar ao menino que a mãe dela daria um jeito. E sim, eu daria. E sim, eu sei que ele não ia gostar, porque meu jeito ia ser dado junto à mãe dele, e não com ele.

Mesmo assim, chamei minha filha no meu quarto. Ela ainda vestia as roupas “super femininas” que usamos em nossas festas. Uma volumosa saia amarela e uma blusa com babados. Os cabelos adornados com uma rosa amarela presa ao lado da cabeça.

Só que no dia a dia, minha filha usa um piercing de septo falso (ela tem 11 anos), batom preto, vermelho, roxo, azul, o que ela quiser, pois usa batom rosa e vestidinho de renda com tiara de florzinhas também. Posso afirmar que ela é uma pequena mulher empoderada esteja em um âmbito mais tradicional, ou em qualquer lugar, cada lugar do seu jeito. Para mim, poder de verdade é tu conseguir transitar em todos os meios e ser respeitada em todos eles do mesmo jeito. O problema é que a decisão de empoderamento dela foi minha. Talvez não seja problema. Conduzo de uma maneira muito realista. Quer usar shortinho? Vai acontecer isso e aquilo. Vivemos numa sociedade doentia, mas não podemos nos tornar doentes por isso. Só tem que ter força para encarar os fatos. Hoje é arriscado o simples fato de sair na rua, sejamos mulheres ou homens, com short ou burca a ameaça vai ser a mesma. Quer frequentar ume festa numa comunidade que tem hábitos milenares? Vai respeitar os hábitos milenares, pois tu não gostaria que desrespeitassem tua casa. E era isso.

Mas nossa conversa não foi exatamente sobre isso. Foi sobre ser educada com as pessoas. Se perguntarem seu nome, responda. Se te derem bom dia, responda. Se te mandarem a merda, responda se te ofendeu, mas não precisa alterar o tom de voz. A vontade era de dizer para ela enfiar a mão na cara de alguém, mas não posso. Já expliquei que isso deve ser feito apenas em situações extremas de agressão.

Porém, fico me perguntando o que seria uma situação extrema de agressão. Físico/corporal? Ora, convenhamos. Já estamos cansados de saber que não é só isso.

Aí depois de todo este turbilhão na minha cabeça, chega a pérola do meu marido: “Sabe cara de paisagem? Tu tem que fazer cara de paisagem. Faz de conta que não está ali. Não é ignorar. É parecer que não está ali”. Então era esta a solução? Ser invisível? Como uma menina que ouve há 11 anos que não devemos ser apenas mais uma pessoa no mundo, que devemos lutar pelos nosso espaços e objetivos de vida vai ficar invisível?

Estava muito cansada para dizer alguma coisa. Na verdade, confesso que na maioria das vezes não sei o que dizer. Digo muita coisa, mas sempre sem a certeza de estar correta. Que bom seria se tivesse um manual de instrução para a vida. Principalmente para criar uma mulher. Um dia me disseram que era mais fácil para mim lidar com minha filha do que com meu filho, afinal era mulher também. Nunca ri tanto de uma piada.

A questão é que fomos dormir e a segunda-feira amanheceu. E com ela o pesadelo de saber que minha filha iria para uma escola onde passa a manhã inteira ao lado de um indivíduo de 13 anos (repetente) ameaçador. Sozinha, sem o irmão (homem e mais velho, lembram?), que em tese poderia defende-la. Mas ok. Meu marido levou-a até a escola e me ligou, colocando-a a falar comigo, para confirmar que estava tudo bem.

Foi depois disto que minha mente deu um nó. Vesti uma saia longa, uma blusa comum com rendas nos ombros. E fui para o trabalho. Meu marido sempre me acompanha no trecho, e eu sempre questiono o comportamento dele, pois sempre afirmo que sei me cuidar sozinha, ainda mais em um trecho que três quadras.

Eis então que caminhando sozinha, aleatoriamente olhei para um homem que estava sentado em um degrau, tomando um copo de café. Ele me olha e diz: “que coisinha linda”. O cérebro é algo muito, mas muito rápido, e meu começou a fazer perguntas enquanto eu dava apenas um passo:

- Será que na cabeça dele isso é um elogio?
- Será que na cabeça dele este ato é um direito dele, por ser apenas um objeto?
- Porque isso não acontece quando meu marido está junto?
- Volto e chuto o café na cara dele, aproveitando que ele está bem na altura do meu joelho?
- Grito um desaforo?
- Respondo que sou grande demais para ser chamada de coisinha?

Mas apenas continuei caminhando. Estava meio perplexa. Acabei optando pela invisibilidade.



quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Escolhi minha família

Ontem o dia amanheceu esquisito.

Estava um pouco alheia aos acontecimentos, pois me vesti apressada para ir ao trabalho e nem assisti o telejornal da manhã como costumo fazer.

Mas o mais esquisito foi chegar ao jornal Correio do Povo e ver um colega da editoria de Esportes, que geralmente chega à tarde (jornal que se preze fervilha à tarde/noite, principalmente a editoria de Esportes) entrando apressado para dentro do prédio. Senti que algo havia acontecido. Mas não sabia que era tão, mas tão grave (e dolorido).

Os fatos que se sucederam no dia de ontem dispensam descrições. Meus colegas que encararam a redação (e por isso às vezes digo que são mais corajosos que eu) já o fizeram. A perplexidade em saber que a maior parte das pessoas que nos deixaram são jovens, muito jovens. A revolta em ter sentido alívio quando encontraram mais um sobrevivente, e este alívio ser seguido da informação do desencarne de mais um que poderia ter sobrevivido, mas não conseguiu, mesmo tentando bravamente até o fim. A tristeza em ver um goleiro de 24 anos perder uma perna, seguida da dualidade empática com a mãe dele: no lugar dela, preferia ter meu filho de volta, mesmo que sem um pedaço do seu corpo, e isso me deixou por alguns segundos feliz por ela.

Chegou um momento do dia em que disparei na linha de tempo de uma rede social do colega que vi pela manhã “Que pesadelo é este”? Não há outra palavra. Era um pesadelo.

Colegas que perderam colegas, famílias que perderam filhos, filhos que perderam pais sem nem ter podido olhar seus rostos físicos.

À tarde, participei de uma reunião que durou algumas horas. E esqueci meu celular na bolsa enquanto isto. Quando saí, havia duas chamadas perdidas do número dos meus filhos. Foi como se eu entrasse num buraco negro. Parece trágico pensar que poderia ter sido uma última tentativa de contato? Talvez. Mas não há como não pensar nisto num dia como ontem. O céu se abriu quando ouvi a voz do meu primogênito: “a gente ligou pra saber se tava tudo bem, tu parecia estranha no almoço”. Óbvio. Imaginem como estava minha cara o dia inteiro, mesmo não trabalhando em cobertura nenhuma.

Nestas horas parece que toda nossa vida passa à nossa frente, mesmo que a morte não esteja diante de nós. Lembrei de quando decidi pelo Jornalismo. Pela paixão por zonas de conflito. E de quando meu marido, meu incentivador e embarcador de todas as minhas canoas (furadas ou não) me presenteou com a matrícula em um curso que a Polícia Civil dá para jornalistas que desejem se especializar na função. Lembrei de quando justamente na semana em que começaria o curso um colega do Rio de Janeiro morreu porque seu colete a prova de balas estava danificado e não deu conta de um ataque durante uma cobertura. E então lembrei do meu recuo. E recuei porque naquela hora só pensava nos meus filhos, no meu marido, nos meus pais. E que poderia ser eu naquele morro. Foi então que escolhi a Gestão de Comunicação e a Cultura. Trabalhei minha vida inteira na área cultural e confesso que nem sei se saberia fazer outra coisa, assim como tem sido minha relação com a Gestão. Acho que nunca mais conseguiria escrever uma reportagem às cegas sem pensar na parte administrativa da publicação de meu produto. Então me lembrei de outra situação. Os colegas franceses (de redação, de gestão, de suporte) que perdemos há pouco tempo num ato covarde de terrorismo. Eles não estavam em um avião. Nem em campo de combate, nem em morro. Estavam em suas mesas de trabalho exatamente como estou todos os dias. E tinham deixado suas famílias em casa para mais um dia dedicado a informar tantas outras famílias seja através de críticas, seja através de notícias, seja gerindo uma publicação, mas informar. E lembrei de novo dos meus colegas, tão próximos no dia de ontem. E que haviam perdidos colegas, ex-colegas e amigos, mas não abandonaram o posto. Alguém precisava informar o que estava acontecendo em meio àquele turbilhão. E eles estavam lá, em pé. Mesmo sabendo da “baixa” de um ex-colega que havia virado amigo (do qual nunca fui próxima, mas confesso, me choquei ao ver as imagens de seu rosto jovem entre as vítimas). Não costumo citar nomes, mas se ontem me perguntassem nomes de heróis eu responderia Carlos Correa, Tiago Medida (por serem mais próximos a mim) e os tantos outros que trabalharam incansavelmente ao mesmo tempo em que sentiam a perda.

Porém, depois de tudo isto, o que me importou de fato (e não tenho vergonha de assumir-me egoísta) foi chegar em casa, tomar um chimarrão com meu marido na praça e ver meus filhos correndo. Voltar, cozinhar o Yakissoba de legumes que eles tanto gostam e depois de ter chorado assistindo os (também colegas) jornalistas do Jornal Nacional homenageando os seus contar para meus filhos sobre o dia em que recuei da Redação. E que hoje sei, não me adiantaria de nada.

Eles precisavam ouvir que a mãe deles recuou não por covardia, mas por eles. Não ouviram isto para que se sentissem culpados por terem interrompido os sonhos de uma jovem jornalista. Mas ouviram para que soubessem da importância deles, aconteça o que acontecer, já que estamos em tempos tão estranhos:
- Escolhi minha família.

Esta foto que ilustrou a capa do Correio do Povo de hoje foi feita pela equipe da Rádio Caracol, Colômbia. Uma imagem simples, isolada e triste, filtrada pelas lentes de quem  teve que ver este momento num todo, com a força de quem está trabalhando. Lembre disto quando falar em sensasionalismo e leviandade.